O VÔO DOS DRAGÕES

 

Em finais do séc. VIII, a costa nordestina da Inglaterra era abrigo de agricultores, pastores e religiosos. A ilha de Lindisfarne era um lugar sagrado, onde cem anos antes tinha vivido Santo Aidan.

Os tesouros do povoado resumiam-se a um punhado de objetos de culto, cálices e hostiários, que eram guardados num mosteiro.

Como nessa altura a maioria dos povos da Europa eram cristãos, os habitantes até podiam temer uma invasão, mas nunca imaginavam que as suas relíquias religiosas pudessem ser tocadas.

Toda essa confiança ruiu no ano 793, quando uma horda de gigantes desembarcou na Lindisfarne, vindos em temerosos barcos das terras gélidas do Norte.

“Voavam como dragões”. Assim eram descritos nas crónicas anglo-saxónicas, que afirmavam que os barcos-dragão foram vistos antes do ataque, ao redor da Nortúmbria, a região da Grã-Bretanha onde Lindsfarne está localizada.

Com ferocidade, estes gigantes de pele branca curada pelos mares saquearam o mosteiro e mataram os monges que dele cuidavam.

 

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Nem as regras celestes nem as terrenas paravam os Vikings, que eram descritos pelos cronistas como “bárbaros” sem piedade. Curiosamente o termo nórdico Vik, refere-se a alguém que vigia as baías, por outras palavras, “vigia” de piratas.

A invasão da ilha foi só o começo e marcou certamente a Era dos Vikings. Entre finais do séc. VIII e inícios do séc. XI, boa parte da Europa começa a ser aterrorizada pelos temíveis guerreiros da Escandinávia.

Na verdade, o campo de batalha era uma espécie de paraíso para os nórdicos. O céu da sua religião, Valhala, nada mais era que uma eterna guerra. Eles acreditavam que, nessa espécie de Olimpo, os vencedores de cada dia eram convidados a comemorar com Odin – um dos seus principais deuses – o sucesso obtido em cada luta.

Nas suas incursões, além de saquear, os vikings faziam escravos. Mas os escandinavos também praticaram pacificamente o comércio e estabeleceram colónias em locais como França, Alemanha, Países Baixos e Rússia. “Os vikings não eram apenas senhores da guerra”, afirma a arqueóloga dinamarquesa Else Roesdahl no livro “The Vikings”.

“Eles eram também exploradores que colonizaram terras até então desabitadas do Atlântico Norte – Ilhas Faroé, Islândia e Gronelândia –, e foram os primeiros europeus a chegar à América.” Apesar de os vikings terem superado o navegador Cristóvão Colombo em cinco séculos, a fama de implacáveis permanece sendo como a sua imagem mais forte.

Os Vikings navegavam para onde havia bacalhau…

 

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“…os bascos não foram os primeiros a curar o bacalhau. Séculos antes, os vikings tinham viajado da Noruega para a Islândia, para a Gronelândia e para o Canadá, e não era mera coincidência o fato dessa ser a área onde o bacalhau do Atlântico era encontrado”.

Aproveitando a versatilidade dos seus barcos, navegaram pelo rio Sena até chegar a Paris. Em março de 885, chegaram, pilharam sem enfrentar grande resistência e, quando ficaram satisfeitos, voltaram aos mares. Esse cerco foi comandado por Ragnar Lodbrok. Para além deste episódio em Paris, pouco se sabe sobre a vida deste temível guerreiro.

O que se sabe é que, antes de seguirem para a Galiza, os vikings fizeram uma paragem em Toulouse, no sul do território que hoje pertence a França. Entraram pelo Rio Garrone e, depois de pilharem a região, seguiram mais para sul. Atravessaram o mar e entraram na Galiza no início de agosto.

Naquele tempo, quem reinava o Reino das Astúrias, era Ramiro I (842-850), que perante a ameaça organizou um exército para combater os invasores. Felizmente para ele, uma grande parte dos vikings tinham morrido durante uma tempestade que os apanhou de surpresa durante a travessia. Os sobreviventes acabaram por ser derrotados perto de Farum Braecatium, local geralmente apontado como sendo a Corunha.

Depois de terem sido derrotados na Corunha, os vikings chegam a Lisboa a 20 de agosto de 844.

 

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Não se sabe ao certo o número de embarcações que chegaram inteiras a Lisboa. Numa carta enviada para Córdova, o Governador da então capital portuguesa, fala em 54 navios nórdicos e em 54 “garibs”, nome que era dado a barcos viquingues de menor dimensão.

Não se sabe se atacaram Lisboa ou os arredores, se chegaram à margem sul do Tejo ou se ficaram pela margem norte, por exemplo. Só se sabe que ficaram 13 dias na zona de Lisboa, um período considerável, o que sugere que se trataria de um grupo menor, com algumas dezenas de embarcações e algumas dezenas de homens e, eventualmente, mulheres.

Depois disso, só voltaram à Península Ibérica em 858. A partir daí, as visitas tornaram-se mais regulares, com os vikings a manterem-se ativos em território ibérico durante cerca de 200 anos.

Para que os Vikings se mantivessem focados nos mosteiros pela Europa, precisavam estar devidamente alimentados.

Uma vez que as expedições vikings podiam percorrer até milhares de quilómetros era natural que os seus barcos também levassem a iguaria mais popular de então: bacalhau pescado nas águas da Noruega.

 

A CHEGADA DO “FIEL AMIGO”

 

Assim, o bacalhau terá chegado a Portugal pelos Vikings, sendo transportado nos seus barcos dragão, podendo-se assim afirmar, que o bacalhau terá sido introduzido em Portugal há cerca de 1170 anos.

 

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Porém, é tempo de avançar com a narração da forma como o “fiel amigo” – que só erraticamente circunda a costa – se instalou entre nós com armas e bagagens para ficar, a ponto de tornar os portugueses temerários pescadores do festejado amigo e seus infatigáveis gastrónomos em quaisquer umas das mil maneiras, por nós inventadas, de o transformar num pitéu de primeira.

Como refere, Fernando Marques da Ganhafa da Nazaré, a partir das trocas viquingues, nasce e progride o interesse dos íncolas pelo bacalhau, cedo lhes germinando a ideia de sacudir a dependência do acaso das arribações dos senhores dos mares de outrora e ir colher o peixe em sede própria, aos mares frios onde nasce e engorda.

Rezam as crónicas, que por 1303, reinava D. Pedro, quando um intermediário chamado de Afonso Martins, mais conhecido por “O Alho”, estabelece um convénio com Duarte III de Inglaterra, atinente a facultar-lhe, a captura do bacalhau nas costas do reino.

Foi assim, sublinhe-se, que a pesca longínqua ensaiou entre nós os seus primeiros passos e que mais tarde, seria do seio dos mareantes – que não raro viriam a ser nobilitados e cumulados de honrarias e de privilégios, – sairiam os marinheiros das Descobertas.

Encurralados por Castela e moirama, estava escrito que o nosso destino seria o mar. Cedo começa, pois, a tomar forma a ideia de nos fazermos ao mar tenebroso, à medida, como já se anotou, do regresso dos mouros às origens.

 

D. DINIS (1261-1325) E O PINHAL DO REI

 

E de certo modo, começa com a plantação do Pinhal do Rei, em Leiria, destinado não só a fixar as dunas do litoral, então designado de estremenho, mas também a fornecer matéria prima para, no tempo do Lavrador, e, no de D. Fernando, a aprovisionar os estaleiros de construção naval da Pederneira, hoje Nazaré, cujos pescadores eram isentos de pagamento das décimas “por corpos e aduas porque serviam a cada um por dia nas nossas armadas”.

Ao vizinho porto de Paredes – de considerável movimento até ao reinado de D. Dinis – foi pelo monarca concedido, em 1282, entre outras regalias, a outorga da chamada carta-de-povoação aos povoadores – na altura uma trintena – desde que senhores fossem, pelo menos, de seis caravelas.

 

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Fernando Marques refere ainda que, os régios sucessores, designadamente Afonso V e o Príncipe Perfeito, D. Manuel, D. João III e o Desejado – não obstante o seu curto trânsito neste mundo, – continuam a dispensar às atividades ligadas ao mar, quer no âmbito das armadas das Descobertas e Conquistas, quer no das frotas do comércio e das pescas – a mais desvelada proteção. Enfim: “alea jacta est”!.

Com a queda de Ceuta – chave do Mediterrâneo tanto para o reino mouro de Granada como para base dos piratas muçulmanos, que, não raramente, à maneira da boa maneira viquingue, atacavam a navegação e as costas da Lusitânia, (daí o adágio de “anda mouro na costa”…) – a 21 de Agosto do ano 1415, efeméride que marca verdadeiramente o começo da Renascença, Afonso V faz soar o tiro da largada para a espantosa aventura dos Descobrimentos.

Além dos Corte-Reais e Diogo de Teive, ou os que estiveram na origem da carta de 1424, jornadearam pelas terras dos bacalhaus.

Entre outros, citam-se por exemplo o vianês João Alvares Fagundes, que depois de chegar ao que hoje é Florida (que de espaço visitou) rumou ao Norte, costeando a costa americana, alcançando a Terra Nova e a costa do Labrador.

 

O ASTROLÁBIO DE ZACUTO E A EXPANSÃO MARÍTIMA

 

Daí por diante é para a frente o caminho: mais além, sempre mais além. Porém, é sob a égide de Henrique, o Navegador, que, uma vez quebrado o cerco de Castela e do Islão, por um lado, e, por outro, o do mar sem fim, que a gesta da nossa expansão se consolida.

 

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Abraão Zacuto

 

Instalado ora em Tomar, ora em Sagres com a sua Casa, o Infante rodeado de gente entendida nos arcanos da oceanografia: cosmógrafos, e geógrafos, cartógrafos ou simples mareantes com traquejo dos pélagos envolventes, votados ao estudo do acervo de mapas e cartas – portulano, existentes e das que, em crescendo, iam sendo elaboradas, e das informações que os nossos agentes conseguiam recolher um pouco por toda a parte, bem como do aperfeiçoamento dos instrumentos náuticos em uso, quando não à criação de novas ferramentas atinentes à navegação cosmográfica – assume legitimamente o papel de coordenador-geral da abertura do Mundo ao mundo das gentes.

 

Arnaldo Rivotti

Ensaio sobre a história do bacalhau, desde os Vikings, ao Pinhal do Rei e ao Infante D. Henrique, “O Navegador”

 

 

Biografia de Abrão Zacuto (Wikipedia):

Zacuto teria nascido em Salamanca em c. 1450. Ali teria estudado e lecionado astronomia e astrologia na Universidade de Salamanca, ainda que haja poucos detalhes sobre sua vida naquela cidade. Quando da expulsão dos judeus de Espanha em 1492, Zacuto refugiou-se em Portugal, sabendo-se que estava a serviço de D. João II em Junho de 1493.

Era já reconhecido como um importante astrónomo antes de chegar a Portugal. No país, seu trabalho foi importante para a ciência náutica. Foi chamado à Corte e nomeado Astrónomo e Historiador Real pelo Rei D. João II, cargo que exerceu até ao reinado de D. Manuel I. Foi consultado por este monarca acerca da possibilidade de uma viagem por mar até à Índia, que apoiou e encorajou.

Mesmo assim, depois de ter acontecido a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Zacuto sofreu a expulsão de Portugal, tal como todos os judeus que recusaram se converter ao catolicismo, que era dada através do baptismo, que o rei português impôs aos que aí viviam.

Abraão Zacuto foi o autor de um novo e melhorado Astrolábio, que ensinou os navegantes portugueses a utilizar, e também de melhoradas tábuas astronómicas que ajudaram a orientação das caravelas portuguesas no alto-mar, através de cálculos a partir de observações com o Astrolábio.

Morreu no Império Otomano c. 1510.

Museu Hebraico Abraão Zacuto (turismodocentro.pt)

Em 1920, Samuel Schawrz adquiriu e restaurou a Sinagoga de Tomar, doando-a para que nela se instalasse o Museu. Foi inaugurado em 1939. A colecção de lápides provenientes de vários locais do país atesta a importância da cultura hebraica em Portugal.

 

Bibliografia consultada:

https://www.livrosvikings.com.br/post/lindisfarne-a-ilha-em-que-os-vikings-derramaram-o-sangue-dos-santos

FONTE: Live Science

JARUS, Owen. Lindisfarne: The ‘Holy Island’ where Vikings spilled the ‘blood of saints’. Live Science. Maryland, 11 de mar. de 2020. Disponível em: <https://www.livescience.com/lindisfarne.html >. Acesso em: 18 de mar. de 2020. (Livremente traduzido pela Livros Vikings)

http://www.vetbiblios.pt/NO_PASSADO/Apontamentos_Historicos/Historia_do_Bacalhau.pdf

Créditos das imagens:

Fotos retiradas da web

Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.