ARNALDO RIVOTTI

Após ter visitado o túmulo do Apóstolo e ao sair pela Porta das Pratarias, na fachada meridional do cruzeiro da Catedral, avistei os cavalos marinhos junto à Fonte dos Cavalos, que me indicavam secretamente que a viagem ainda não tinha terminado e que o seu verdadeiro destino, produto da iniciação adquirida, ainda se encontrava bem para lá do além.

Percorrer os lugares que constituem as raízes imediatas da lenda jacobeia pressupõe uma nova viagem quase obrigatória, a de partir espiritualmente para outras demandas e desvendar novos segredos, agora não tanto milagrosos, mas cada vez mais envoltos em mistérios, pois só esses nos levam à descoberta.

Na realidade, chegar a Compostela como peregrino consciente transforma-nos num outro peregrino não tanto devoto, mas verdadeiramente mais lúcido.

Chegar mais perto do destino, tirar deleite dos conhecimentos que o Caminho nos ensina a aprender, torna o Encontro mais direto, ainda que menos definitivo.

“as coisas a que chamamos boas  fazem-se de pormenores simples e saborosos”

Este Encontro, que só quem procura pode encontrar, transborda de testemunhos ocultos e insiste com teimosia em libertar as mensagens enterradas nas pedras, com desígnios que se encontram e recolhem em andamento, muitas delas gravadas por homens sábios, que pediram a modestos pedreiros para construir com elas as suas santas cantarias.

A visão e experiência vital que a visita ao Túmulo Sagrado e o Encontro com a morte iniciática nos brinda constitui-se como uma passagem que impõe a aproximação da inércia ao numinoso e ao renascer de nós próprios.

Assim, e, quem sabe um pouco tardiamente, espero poder também ajudar-vos a revelar alguns dos mistérios e prescritivos, muitos deles retirados do mito jacobeu e das Suas espirituais e hipotéticas relíquias.

Apetece-me partilhar convosco que não é do meu intento desviar-me desse ideário, pois as coisas a que chamamos boas  fazem-se de pormenores simples e saborosos.

Para quê querer mais quando temos quase de tudo?

Nota: Obrigado, Miriam, por me teres proporcionado esta experiência maravilhosa.

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Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.