Na Praia da Vieira, em Leiria, ouvem-se pregões às primeiras horas da manhã. É um alvoroço para ver sair o peixe. Na praia, um mar de gente rodeia os pescadores da arte xávega para comprar o peixe mesmo acabadinho de sair da rede, ainda a rabear. O povo madruga para comprar da primeira rede. “Eles vêm todos e chegam cedo, gostam de ver, até se “botam” em cima da rede e não nos deixam trabalhar”. 

Se fosse pintor passaria a vida a pintar telas com a cor do mar. A cor do mar muda com a luz. Há-a em farfalhos, como em telas vivas, umas vezes de ar trágico, quando as nuvens lhe tomam o horizonte, outras vezes de oiro e prata, com poentes esverdeados e azuis, com os seus laios esquecidos que boiam sobre as águas. A luz demora-se no mar, sempre muito, até adormecer.

Quando vou à Vieira, paro muitas vezes junto aos penhascos de São Pedro de Moel, para sentir o cheiro do mar carregado de salitre, que torna a boca pegajosa e amarga com o sabor da névoa misturada com o pó da água do mar.

Mesmo nos dias de Verão, o sol das manhãs tarda em aparecer. Pelo céu navegam vagarosamente nuvens altas e espessas, planas e longas como velas amainadas.

Num repente até os olhos turvam com o brilho metálico do sol a rasgar e afugentar a neblina e tudo começa a abanar num roliço alegre, a mover-se por todo o lado.

A cor do mar também muda, evocada pela luz.

a cor do mar

O mar acorda em lascas azul-prateadas e brilhantes com ondas impetuosas a estalar em salpicos brancos.

Nasce um novo mar a transparecer-se em cores ora azuis, ou turquesas.

Pelo caminho de São Pedro à Vieira, encontram-se marisqueiros que descem às falésias para apanhar os percebes que se colam às algas e às rochas. Olhar para eles lá de cima é um arquétipo emocional incrivelmente arrepiante.

Chega-se então à praia da Vieira que se inclina suavemente para o mar. Estende-se para norte até às chamadas pedras do Pedrógão e para Sul até São Pedro de Moel. A nascente temos a modesta Vila de Vieira de Leiria.

Com uma vida simples e alegre da pesca, com o aroma resinoso dos pinheiros do “Pinhal do Rei”, com o apregoar das peixeiras, com o puríssimo iodo, e as brancas dunas, a Praia da Vieira, é um pequeno povoado de pescadores que vivem das águas de comer.

De madrugada toda a Praia acorda. O homem do búzio chama a campanha.

Barcos de proa revirada largam para o mar. As redes a saírem puxadas, as mulheres palreando, os homens gritando uns para os outros. Estes são aspetos entusiásticos do intenso movimento à volta dos peixes.

Outrora, o xalavar era colocado no mar, longe da costa por uma barcaça a remos, que ia desenrolando a metade do cabo, ficando uma das pontas do mesmo amarrada a uma junta de bois. Os pescadores faziam o cerco aos cardumes de peixe em alto mar e retornavam à praia desenrolando a outra metade do cabo para a sua extremidade ser puxada pela segunda junta de bois.

Mas o que mais apaixona e prende era a recolha ser feita com a ajuda de juntas de possantes bois da cor das castanhas e força braçal de muitos homens, em que todos os pescadores se agarravam às “mangas” puxando sem canseira à mistura com os bois, que as raparigas boieiras espicaçavam com alvoroço.

xavega8

A xávega terminava com a chegada a terra e abertura do xalavar, saco de rede de forma cónica que continha a pescaria.

Hoje a força dos bois deu lugar aos tratores, mas a arte Xávega, continua a ser a mesma de tempos há muito idos, com o auxílio de aladores.

Quando o saco faz “resolho” os pescadores fazem um alarido estridente, um berreiro que alastra por toda a praia, tontos de alegria. Esta azáfama só termina quando o “saco” chega a terra e quando as expectativas se confirmam e a rede vem a estoirar de peixe,  é vê-los a gritar até ficarem roucos de tanto contentamento.

Um ou mais homens começam a “enchelevar” o peixe despejando-o para os “lavadeiros” que outros homens e até mulheres carreiam para cima, formando montes em linha paralela.

xalavar 2

Outrora, no começo do loteamento separava-se o “quinhão” para o homem do búzio, um cabaz para as almas do purgatório e ainda para o Santíssimo Sacramento.

 

Arnaldo Rivotti

Nota:

A palavra xávega provém do árabe xábaka, que significa rede. A denominação xávega era usada pelos pescadores algarvios. No litoral centro e norte praticava-se um tipo de pesca semelhante, mas com muitas diferenças. Os barcos, eram diferentes na forma (crescente de lua) e no tamanho, também de fundo chato e com as suas proas bastante mais elevadas para melhor suportarem o ímpeto das ondas, tinham uma capacidade de carga muitíssimo maior do que os barcos do sul.

A arte xávega ainda se encontra em algumas praias de Portugal. Ainda é praticada na Fonte da Telha, Caparica, Nazaré, Pedrógão e em outras praias do norte de Portugal.

Esta arte de pesca tem seu equivalente em outras partes da Península Ibérica e em Marrocos. É muito popular em Málaga (Espanha), onde a jábega, além da rede, também dá nome ao barco tradicional, a barca de jábega.

Bibliografia:

  • Considerações sobre a arte xávega em Portugal: sua introdução, desenvolvimento e teorias inerentes
  • As 7 maravilhas da cultura popular
  • Xávega – pt.wikipedia.org

Foto dos bois: https://made-portugal.blogspot.com

Foto do mar: Arnaldo Rivotti

Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.