Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

 

António Gedeão, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa, a 24 de novembro de 1906, cidade onde faleceu a 19 de fevereiro de 1997. Foi um professor e poeta português https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Gede%C3%A3o

Pedra Filosofal musicada e cantada por Manuel Freire

https://www.youtube.com/watch?v=kGvY4tqcgUQ

 

Crédito da Foto: @resitoner

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Pedro Assis Coimbra
PAC, português cidadão do mundo, nasceu em Amiais de Baixo, Santarém em 29 de outubro de 1958 e vive em Budapeste há mais de 40 anos. “Militante das Palavras” escreve poesia porque é a maneira que tem de respirar e viver.