Estava eu no Telheiro, num matagal de juncos, ainda na primavera, em meados de Maio. O tempo era inconstante; desde manhã caía, de quando em vez, uma chuvinha tépida, que alternava com um sol esplendoroso. O céu, ora se cobria de nuvens brancas e fofas ora se abria nalguns lugares por um instante para mostrar o seu azul ainda pouco intenso, a querer deixar as águas de Abril.

Ia muitas vezes para a ribeira de Pias, e por ali ficava à espreita das bogas, que raramente se acercavam do anzol que pendia numa fina linha, a farolar para uma bóia de cortiça toscamente modelada.

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A essa hora costumavam aparecer as rãs-verdes, criaturas muito dispersas e ruidosas durante toda a Primavera, com proeminentes olhos dourados e no seu dorso uma linha verde com pregas a combinar com a cor dos olhos.  Chegavam também os pintarroxos e piscos-de-peito-ruivo, acercando-se dos ninhos de folhas secas feitos em tigelas de musgo.

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Aguardava ansiosamente o final de tarde. Era dia da minha tia Maria trazer a alcofa com broas de milho branco ainda morninhas, recheadas de cebolas adocicadas, cozidas sabiamente uma vez por semana no seu forno a lenha.

O Telheiro, localizado no declive de uma colina desnuda, com algumas macieiras e erva farta a banquetear tarantas, era cortado de cima a baixo por um terrível carreiro. Abria-se como um abismo pelos silvados, serpenteando aluído e lamacento, nos dias mais chuvosos.

Quando fazia sol, assolava-nos de poeira miudinha de terra vermelha a impregnar as sandálias de couro – “Pior que um caminho de cabras!”, bradava o meu avô Jorge, ilustre encadernador da Biblioteca Nacional, que para ali fora desterrado. É difícil de dizer o que o obrigou a abandonar Lisboa, a que, pelo que parecia, se habituara muito.

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Maldito carreiro. Nos dias de chuva, era pior que um rio. Os rios ainda têm pontes, mas aquele nem isso tinha. Percorria léguas a pé todas as manhãs, muitas vezes ainda de noite, para chegar à escola.

Uma escola modesta, risonha e franca como no antigamente.

Abrigava quatro fiadas de carteiras, onde sentavam os alunos, consoante a classe a que pertenciam, da primeira à quarta. Havia apenas duas salas. Uma para rapazes, outra para raparigas – nada de misturas, dizia a Bexiguenta, como carinhosamente era de alcunha apelidada, a querida professora da primária.

Um verdadeiro martírio. Imaginem a algazarra. Uma fila inteira a entoar a tabuada, a outra a ler em voz alta, a terceira a redigir um ditado, só para não referir a última, toda ela concentrada no estudo das dinastias.

Pior que o carreiro era apenas a cantina, onde propunham todos os santos dias igual ementamento.

Tinha telhado em canudo e uma chaminé; uma janela de olho penetrante a dar para o malfadado carreiro. À hora do almoço e nos dias mais invernais, via-se a bruma baça da neblina a cintilar sobre o prateado das oliveiras. Ali passei dois anos a comer sopa de feijão com batatas e couves.

Acompanhava a sopa um conduto que ainda hoje é o sabor mais hediondo que alguma vez experimentei. O malfadado óleo de fígado de bacalhau, aquela gordura crua e nauseante de um abjecto fígado de peixe cru, que nos obrigavam a engolir de uma só vez com a colher. Maldito óleo de fígado de bacalhau. Diziam que fazia bem. Mil vezes pior que aquele maldito carreiro.

Pias… Era um lugar mágico e uma terra de pão.

Na Quinta dos Olivais, onde o meu tio António era feitor, cresciam da terra fértil boas cerejas e frutos perfumados.

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Da queijaria dos Olivais saíam também os afamados queijos das Areias. Famoso desde sempre, o seu segredo não é mistério. A qualidade do pasto, a utilização de cardo e as mãos sábias de várias gerações faziam deste queijo uma sagrada maravilha. Era vendido na Feira da Ascensão e vinha gente de todo o lado comprar o famoso queijo.

Mas o que mais fascinava era mesmo o milho, que crescia vigoroso e enfeitiçava a cumprir a sua missão, em leiras empoleiradas e sobrepostas. Era então arrecadado, depois de escamisado na eira, nos espigueiros da quinta que faziam lindas sombras ao crepúsculo.

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Comum era ainda o milho miúdo e o painço, que fazia valer o seu sabor numa forma de polenta firme e cremosa, nunca grelhada ou frita, feita com a mesma receita pois não inventavam muito.

O moleiro das Pias andava sempre cheio de serviços a recolher o grão de casa em casa, levado nas albardas dos jumentos para os moinhos da Serra da Forca.

Era um homem corpulento e anafado, de cara gorda e branca como a farinha, nuca de boi e uma grande barriga redonda.

Quando trazia a farinha em sacas de serapilheira fina  acomodava-se junto à Casa do Regedor, ao lado da igreja de São Luís de Tolosa.

Olhava com gratidão, orgulhoso, quando a tia Maria o brindava com uma broa de milho, umas vezes com cebola, outras com petingas.

A broa nunca vinha só. O moleiro soerguia-se, sempre com a mão na nuca, benzia-se e emborcava o copo. “Que Deus lhe dê saúde!”, pronunciava.

O lugar que ocupa hoje, a outrora Vila de Pias, foi em tempos remotos um próspero povoado adstrito a uma comenda, cuja sede ainda hoje se conjectura ter sido o atual lugar das Areias, junto à igreja de Santa Maria das Arenas.

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Foi doada aos Templários por Afonso Henriques no ano de 1146, crendo-se que estes primeiros Senhores lhe tenham dado foral.

Importa recordar que a Ordem Militar de Cristo foi instituída pelo Rei D. Dinis em 1318 e confirmada pela bula Ad Ea Ex Quibus Cultus Augeatur dada pelo Papa João XXII em Avignon, a 14 março de 1319. A Bula Pontifícia foi emitida a pedido do Rei D. Dinis para que a Ordem criada sucedesse à Ordem dos Templários, extinta em 1311 pelo Papa Clemente V.

Os bens dos Templários ficaram assim atribuídos à nova Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De acordo com o historiador António Baião, autor da Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere (1918), o lugar de Pias teve como seu primeiro comendador frei Álvaro Gonçalves (1345) a que se seguiram, entre outros, os célebres Gonçalo Velho Cabral (séc. XV) e Lourenço Pires de Távora (séc. XVI).

De sede de comenda, Pias ascenderia à categoria de Vila a 25 de fevereiro de 1534, por ordem directa de D. João III, sendo este curioso episódio narrado pelo padre António Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa (1712).

“Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal, com as noticias das fundações das cidades, villas, & lugares, que contem; varões illustres, gealogias das familias nobres, fundações de conventos, catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios, & outras curiosas observaçoens. Tomo primeyro [-terceyro] / Author o P. Antonio Carvalho da Costa…. – Lisboa : na officina de Valentim da Costa Deslandes impressor de Sua Magestade, & á sua custa impresso, 1706-1712. – 3 vol. : il., ; 2º (29) cm”

De acordo com o cronista, o rei terá ficado alojado nas pousadas de Jerónimo de Sousa, morador nesta povoação, e tão contente ficou com a recepção que a converteu em Vila e fez do estalajadeiro seu primeiro capitão-mor.

Pias seria então apartada da Vila de Tomar e mais tarde, a partir de 1588, com a fundação da igreja matriz de São Luis de Tolosa, converter-se-ia igualmente em sede de concelho, sendo-lhe então atribuído todo o termo de Santa Maria de Areias.

A Igreja de São Luís de Tolosa é um templo quinhentista, onde se descobrem pinturas sobre madeira atribuídas a Avelar Rebelo, ilustre pintor régio do período da Restauração. (Enciclopédia das Localidades Portuguesas)

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Importa referir, e conforme consta no livro Santos Franciscanos Para Cada Dia, das edições Porziuncola, São Luís de Tolosa (1275-1298), de seu nome Ludovico de Anjou, foi um príncipe, filho de Maria da Hungria e de Carlos II de Nápoles, que nasceu em Itália, muito provavelmente na Sardenha.

Foi tratado com crueldade, pagando pelo rancor que o rei de Aragão nutria pela política do papa e do rei de Anjou. Ludovico aceitou a longa prisão com abnegação e paciência. Mas já estava acostumado à vida de penitência. Desde pequeno, não dormia na sua cama real, preferindo o chão duro e frio. Assim, aquele período no presídio só cristalizou a santidade do jovem príncipe.

Era tratado com aspereza e deixado junto dos leprosos, de quem cuidava com zelo e carinho. Não temia o contágio, que seria motivo de felicidade, pois poderia sofrer um pouco e imitar um tanto o sofrimento de Cristo.

Passou sete anos nos calabouços em Tarragona e Barcelona. Aquando libertado, a sua educação foi confiada a frades franciscanos até, por doença grave, fazer o voto de se tornar frade menor. Em 1297 foi para Tolosa, França, onde foi bispo. Morreu de lepra em Brignoles.

De acordo com Baião, o Templo de São Luís de Tolosa foi fundado em 1588 a pedido dos moradores do lugar das Pias, até então dependentes da paróquia de Areias, que assim intentaram na construção de uma nova igreja, mais próxima e capaz de servir nos rituais litúrgicos.

Como o Templo de Pias foi remodelado por várias vezes, apresenta influências de vários estilos arquitectónicos: Renascimento, Maneirismo e Barroco. Porém, a base estrutural é essencialmente gótica.

De plano longitudinal, possui uma planta rectangular de três naves e capela-mor, sendo a cobertura em telhado de duas águas rematado por dois pináculos. À direita, adossada a esta, apresenta-se a torre sineira. Com uma fachada triangular, os dois rasgos existentes são formados pelo portal em arco de volta perfeita, com acesso por uma escadaria, encimado por uma janela de iluminação do interior do templo, também em arco de volta perfeita.

Este templo religioso está situado a poucos metros do pelourinho, separada deste pela estrada principal.

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Fontes da Direção-Geral do Património Cultural  descrevem que o Pelourinho das Pias, situado num pequeno largo, quase em frente à Igreja Matriz e face à estrada que atravessa a população, ergue-se num soco de três degraus quadrados. De acordo com as mesmas fontes, a coluna do Pelourinho assenta num plinto quadrangular encimado por escócia circular, elevando-se em fuste cilíndrico e liso. O capitel é apenas simbólico, constituído por um anel próximo do topo a partir da qual o fuste volta a alargar. Esta parte de troço está ornamentado com caneluras. Contudo, o desgaste do calcário não permite identificar com clareza o desenho em que foi trabalhado. A coluna finalmente é rematada por um ábaco ou tabuleiro em tronco de pirâmide quadrangular com bordos côncavos. No centro de cada aresta estaria uma minúscula cabeça antropomórfica ou esotérica, estando algumas mutiladas.

Por outro lado, a igreja matriz de Nossa Senhoras das Areias terá sido fundada muito antes, no século XV, havendo notícias da existência de uma capela em 1489. Esta data corresponde, sem dúvida, ao início da construção do templo, uma vez que a capela-mor foi mandada fazer em 1502 por D. Manuel e a sacristia foi terminada em 1510 (SEQUEIRA, Gustavo de Matos, 1949).

Dedicada a Nossa Senhora da Graça, a igreja foi reconstruída cerca de 1548, numa campanha de obras dirigida por João de Castilho (SERRÃO, Vítor, 2002, p. 67).

Segundo Baião, a edificação deste templo fora ordenada pela pena real de D. Manuel I, ao tempo ainda Duque de Beja, em mandado dirigido ao vedor das obras de Tomar, Pedro Vaz, recomendando-lhe el-rei ver bem o necessário para se providenciar, considerando isto, para efeitos de pagamento, como obra do Convento de Cristo em Tomar.

Nos bordados em pedra dessa igreja esteve a mão de Juan de Castillo, que trouxe a sua escola de canteiros da Cantábria e foi considerado no seu tempo um dos maiores arquitectos da Europa, tendo sido o arquitecto responsável pelas grandes obras da Ordem de Cristo na época da reforma empreendida por Frei António de Lisboa.

No livro A Vila e o Concelho de Ferreira do Zêzere, António Baião descreve que Juan de Castillo foi chamado por D. João III para se estabelecer em Tomar. A sua obra abarcava o gótico extravagante, o gótico tardio, a segunda etapa do estilo nacional português, o manuelino, tendo introduzido o plateresco em Portugal e entrando depois nas várias fases do Renascimento.

Basta olhar para o Capítulo, aquela janela feita de mar e mundo no nosso Convento. É simplesmente o único arquitecto no Mundo com cinco obras reconhecidas como Património Mundial, como o Mosteiro dos Jerónimos, Batalha, Alcobaça, Convento de Cristo e a Fortaleza de Mazagão, em Marrocos.

Devíamos corar por ainda não lhe ter sido reconhecido mérito. O seu nome, julgo eu, consta de uma única placa toponímica em Tomar, no antigo Bairro Salazar, hoje designado 1.º de Maio.

Não julguem que a igreja de Santa Maria das Arenas era pobre, pois possuía ela já então diferentes alfaias de prata e paramentos de damasco.

E, se por um lado, a nobreza, os homens-bons e o povo rejubilaram com a distinção obtida pelas obras na Igreja e elevação de Pias a vila, outro tanto não aconteceu com os freires do Convento de Cristo, sempre ciosos dos seus direitos e regalias.

Pias, que abrangia as Areias, era na altura uma vila populosa, pois contava já com quase meio milhar de fogos, juntando as vintanas de Almogadel, Avecasta, Vila Verde e as demais outras, como refere Baião.

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Pois, uma população tão grande não podia estar numa só igreja e assim o entenderam os habitantes de Pias. Quando a sucessão dos tempos trouxer quem reaja contra os omnipotentes senhores do Convento de Cristo em Tomar e não esteja de boa mente para suportar os seus vexames e prepontências, eis-los condenados a ser temperados no beber do vinho, como sagazmente relata Baião.

Este historiador residente da Torre do Tombo adorava contar estas histórias sempre de olhos arregalados e de face ao rubro.

Quando vinha às Pias, sua terra natal, este brilhante historiador, passeava-se a cavalo pelos campos como quem relê um romance, com personagens a surgir no meio da estória e a desaparecer depois de terem cumprido a sua missão.

Ainda me lembro dele. Uma figura altiva, de calvície esbranquiçada e de bigodes que lhe chegavam aos queixos, que se passeava muitas vezes no seu cavalo cinza junto ao casarão esconso de paredes largas, onde eu morava no lugar do Telheiro.

Dizia ele que a Inquisição, ainda estabelecida em Tomar, tinha embirrado com os cristãos novos das Pias e não só, pois nem alguns dos religiosos trinitários se livraram quando a Inquisição de Lisboa passou a ter jurisdição sobre a prelasia de Tomar, caindo-lhe as garras sobre a nobreza da comenda.

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Já mais tarde, muitos deles foram acusados falsamente, diante de Felipe II e lançados nas galés como forçados, onde estes não cessavam de dar queixas a Deus, pelos pecados não cometidos.

Por causa destas místicas perseguições e consolação espiritual, que para Baião eram claras, mas que ainda hoje poucos querem desvendar, o então próspero lugarejo começa a cair em desgraça. Vindo das Pias, da procissão de Corpus Christi, em conversa Baião dizia que o Santíssimo Sacramento não estava na Hóstia Sagrada, pois Deus só estava no Céu.

Naqueles tempos era assim.

Nesse dia, ao cair da tarde, despedi-me das rãs e dos piscos, recolhi a palamenta e regressei ao casarão esconso onde vivia.

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Ainda passei ao lado da taberna do Chico onde, sem pedir, me davam quando os havia, uns tremoços fantásticos, curados pela água fria da ribeira. Nessa taberna, o vinho era vendido a preço mais alto do que o corrente. Mesmo assim, a Taberna do Chico era o estabelecimento mais frequentado nas redondezas.

Quando cheguei a casa fiquei feliz. Em cima da mesa, estava a broa de milho branco, recheada de cebolas adocicadas que a minha tia Maria trouxera.

Sentei-me à luz do candeeiro a petróleo e deleitei-me a saboreá-la.

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Arnaldo Rivotti

 

Agradecimento:

Obrigado ao Pedro Joaquim pela gentileza de nos ter cedido as fotos e ao Edmundo Rivotti pelo apoio e carinho que me emprestou

Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.