Tinha regressado de um habitual passeio à praça Móricz. Apesar do frio intenso que se fazia sentir, ainda não tinha nevado em Budapeste.

Era agradável vaguear pela praça. Juntava-se ali muito povo à espera das transvias. Nas horas livres saía para conhecer a cidade, misturando-me com as gentes de lá. Tudo era diferente e curioso.

Senti pela primeira vez saudades da minha terra e dos sabores a que, enquanto menino, me habituara. Antes de regressar ao colégio, carregou-se-me uma líbido emocionalmente forte com memórias de infância.

Comprei duas batatas e óleo para fritar. Fui directo para a cozinha comunitária do Instituto, onde então cursava. Descasquei as batatas, verti o óleo num tachinho, adicionei os palitos à fritura ainda morna e fiquei a aguardar a magia acontecer.

O resultado foi uma verdadeira catástrofe. Ao meu lado estava Jamal, um colega argelino, que me emprestou a arte de confecionar a verdadeira batata frita. E o milagre aconteceu. Tornei-me especialista em batata frita.

Quando dava a provar as minhas batatas, umas vezes estaladiças, outras vezes aromatizadas, caramelizadas ou insufladas, Jamal referia sempre que para cozinhar é preciso criar emoção. Não basta ter o ápice mais perfeito da sabedoria. Cozinhar é um raro momento de epifania e uma forma inspirada e iluminante de juntar elementos genuinamente diferentes.

30 anos mais tarde e depois de Jamal me ter ensinado a fritar batatas, tornei-me proprietário e Chef do Restaurante Notas de Degustação num bairro histórico de Lisboa. Ainda hoje tenho saudades daquele nostálgico bistro.

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Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.