Pedro Assis Coimbra, poeta dos Amiais de Baixo, Santarém, Portugal e a viver em Budapeste desde 1979, tem uma poesia envolvente e vibrante. Com performances memoráveis a percorrer o caminho das palavras, o poeta, autor do livro “As palavras Continuam”, desvela o processo de transformação dos significados, como que a entrelaçar o urdume das palavras à intencionalidade da poesia. Falámos sobre as suas inspirações, sobre a relação poética e o real, abordando a metáfora poética que é a que melhor define o amor.

Antes de mais, Pedro Assis Coimbra, (PAC) obrigado por conceder esta entrevista ao Lusotimes, que Carla Miranda (CM) lhe fará, na qualidade de simples leitor, como tantos outros.

 CM – Como é que a poesia entra na sua vida? Quando é que se começa a interessar? Ainda se lembra do poema?

PAC – Tropecei na poesia era ainda criança e Fernando Pessoa foi a primeira referência, mas também, António Gedeão, por exemplo, com a Pedra Filosofal (extraordinariamente musicada e cantada por Manuel Freire) e que conheci pela primeira vez, através da televisão, no programa Zip-Zip, talvez em 1969 ou 1970. António Gedeão era o pseudónimo do professor de Físico-Química, Rómulo de Carvalho.

Talvez não o devesse fazer, mas confesso, que as minhas primeiras ”palavras” foram escritas para servir de letra à música principal do filme O Padrinho de F.F. Coppola. Na altura nem sabia que o autor da música era Nino Rota.

Em 1974, com o 25 de Abril, a liberdade floriu em Portugal e a poesia passou a ser cantada pelas ruas, pelas cidades de Portugal, e também por Santarém, a cidade onde vivia.

Aliás, gostaria aqui de referir que nasci numa aldeia ribatejana próxima, Amiais de Baixo, a minha terra.

Ainda hoje sinto orgulho de ser amialeiro. Tinha apenas 15 anos e comecei a devorar poesia, novos poetas, nova poesia, alguma dela até então proibida ou censurada.

Foi então que descobri José Gomes Ferreira (que escreveu ”Foi então que descobri as palavras”), Eugénio de Andrade, A. Ramos Rosa, Jorge de Sena, Ruy Belo, David Mourão Ferreira, Daniel Filipe ”A Invenção do Amor”, Pablo Neruda, Paul Éluard, Aragon, Baudelaire, Verlaine, Miguel Hernandez, Garcia Lorca, Vinicius de Moraes etc, etc, os cantautores como Jacques Brel, Victor Jara, Chico Buarque, Moustaki…

Claro que não podia esquecer José Afonso, o Cantautor de Abril e Ary dos Santos, o Poeta de Abril… e foi assim que me tornei ”militante das Palavras”, militante da Poesia, sem a qual teria sido, é, será sempre muito mais difícil respirar.

Os meus 2 primeiros poemas de tributo a Neruda e a Victor Jara, foram escritos ainda em outubro de 1974. Tinha adotado o Chile como meu segundo país. Escolhi o meu pseudónimo em janeiro de 1975 e desde então, com ele, mesmo com a atividade profissional que tenho há décadas, com o ”PAC” me levanto e me visto todos os dias, mesmo quando estou tempos sem escrever.

Com ele também me ”dispo”, sem vergonha em praça pública.

No início dos anos 80 do século passado com a colaboração de um poeta-amigo, Zetho Cunha Gonçalves, lançamos uma ”plaquette” – 13 poemas com título ”Gato Preto”, naturalmente uma edição para amigos e familiares.

Escrevi muitas ”palavras” entre 1975 e 1987 e depois estive quase 20 anos sem escrever.

Foi o tempo que me dediquei a família, ao trabalho de diplomacia económica, mas sobretudo cultivar rosas, quero eu dizer, a criar e ver crescer as minhas 3 filhas e o meu filho.

Desse período guardei e editei cerca de 1/5 do ”meu espólio do verbo”. Num dia muito frio em Budapeste, cidade que me adoptou e onde vivo há 4 décadas, na fase em que estava a selecionar os poemas para os meu livro ”As Palavras que Ficaram”, apenas quando os mais de 4 centenas que não selecionei, serviram de acendalha para o meu fogão de sala. Hoje tenho pena, mas a vida, a poesia está no que está ainda para vir, o melhor está ainda por chegar…

CM – Como descreve a sua relação poética com o real?

PAC – Durante muitos anos utilizei duas frases impactantes na aproximacão à poesia, a minha interpretação de relacionar a vida, o real, o mundo com a poesia, com o imaginário, com o irreal, com a beleza, com o amor, com a mulher, com a festa, com a vida.

Hoje já não estou seguro 100% que foram eles que disseram, mas toda a minha vida assim o utilizei e não é agora que vou mudar.

Éluard terá dito “O pão é muito mais importante que a poesia”. Obviamente que é uma verdade absoluta.

Se é verdade que “para que serve a minha liberdade por exemplo de pensamento e expressão se não tenho pão, comida para dar aos meus filhos!?”, ainda é mais verdade se substituirmos a palavra liberdade pela palavra poesia.

A segunda terá sido dita por Rousseau de que “não há nada mais belo para o sapo que os olhos sapudos da sapa”…

CM – Haverá metáfora poética, que melhor defina o amor?

PAC – Talvez sim, mas não será fácil encontrar. A poesia, a criação poética é também um ato de muita solidão e também de muita solidariedade. Permita que recorde cinco (4+1) versos que escrevi – “Poesia é fixar a felicidade dos outros/trazê-la com metáforas para as palavras/escolher algumas e levá-las para casa/no bolso que fica mais perto do coração” (Poema – Cidades das Palavras) e “Porque escrever é também um ato solidário da nossa solidão” (Na leveza dos sentimentos).

A poesia, como eu a entendo é muito mais do que escrever o sentimento individual e único de amor pela musa, pela liberdade, pelo país, pela cidade, pelo mar, pela planície… a poesia como eu a entendo, deve também olhar, ver e interpretar os outros, as pessoas, as coisas e descrevê-las, através de imagens de metáforas, mesmo quando a solidão é tão forte ou mais forte que a solidariedade.

CM – Quais as suas inspirações?

PAC – Desta nossa primeira conversa talvez já tenha sentido que comigo também é válido de que ”nada do que é humano me é estranho”, seja como ”escribador” de palavras, seja como o meu outro eu – o que ganha o pão para dar de comer às palavras, a poesia – e que a maior parte dos dias anda de gravata.

 ”nada do que é humano me é estranho”

Um prato servido com boa apresentação, com gosto e de trás da orelha, delicioso, acompanhado de um bom vinho, tinto sobretudo, se bem que parafraseando o meu pai, „tinto ou branco? Cheio!.. em melhor companhia, pode ser motivo mais que suficiente para que as palavras exijam lugar, queiram ouvir a sua voz, que a poesia afinal seja a sobremesa ou o café ou o digestivo desse almoço ou jantar.

A mim, ao PAC, inspira-o a arte, um bom quadro, uma boa fotografia, um bom artigo de jornal, uma boa música. Há uns anos antes ouvir os meus filhos falarem português, estar na Nazaré (na Praia de Nazaré) onde comecei a andar, poder ver e poder olhar uma mulher bonita, uma mulher com estilo – aqui recordo sempre as palavras do meu defunto amigo uruguaio Daniel, que dizia, ”uma mulher não se define por ser linda ou por ser feia, define-se por ter ou não ter estilo. Se tem estilo, é um pecado não a convidar para tomar um café”…

CM – Fale-me um pouco sobre a mulher e como aparece ela na sua poesia?

PAC – A mulher, é a musa, é o amor, é a vida ela mesmo. Aqui permita-me um aparte, não por ser moda, ser ou parecer politicamente correto ou querer ser ”moderno” ou mostrar o que de facto não sou.

Quero eu dizer, assim como para mim é evidente, que musa, a minha musa, é uma mulher, só pode ser mulher, aceito, mesmo não sendo o mais natural ou frequente, aceito e é para o lado que durmo melhor, se a musa de um poeta, é um muso, um outro homem ou se a musa de uma poetisa, é outra mulher.

Garcia Lorca, esse grande poeta de Espanha e do mundo é um bom exemplo. Para mim, sem mulher não há poesia, se o mundo fosse apenas de homens, certamente nunca teria escrito um poema de amor.

Recordo que em Viena na sala onde está a famosa pintura “O beijo” de Klimt, numa das paredes está escrita uma frase célebre de um impressionista francês, ”se as mulheres não tivessem seios, nunca teria sido pintor”.

Os olhos, a voz, a inteligência, a doçura, os dedos, os lábios, a partilha da visão do mundo, partilha dos sonhos, partilha dos dias da semana, não apenas dos sábados e domingos, quando um olhar ou um sorriso diz mais que mil palavras, é o sal e a pimenta da poesia, da minha poesia, é o oxigénio das minhas palavras.

CM – Depois voltou a publicar…

PAC – Sim. Precisamente 10 anos depois do “As Palavras que Ficaram” (2008), uma antologia com 12 “capítulos” e 125 poemas do que escrevi entre 1975 – 1987, e “As Palavras do Fado”(2006 – 2007), com 50 letras para fado.

A propósito, permita-me que lhe diga que tenho uma sobrinha que é fadista, a Joana Amendoeira e o irmão mais velho, meu sobrinho o Pedro Amendoeira, que é guitarrista de fado.

A Joana canta e gravou 5-6 letras minhas que muito me “envaidece”…

Publiquei em 2018 as Palavras Continuam do que escrevi entre 2008 e 2018, cerca de 500 poemas, com lançamento duplo, primeiro em Budapeste e depois em Lisboa.

Foram momentos muitos felizes e inesquecíveis.

CM – Que passo é este que quer dar agora? As Palavras Continuam?

PAC – Em termos de poesia, ando lentamente, preguiçosamente a escrever para o meu próximo livro “Com As Palavras Até ao Fim”.

Tenho tempo, é para publicar somente em 2028…

Mas sabe uma coisa?

Há momentos de sorte e ter bons amigos espalhados por este mundo fora é uma das maiores das sortes que temos, que tenho e aconteceu-me de novo.

Através de um amigo de longa data, fui desafiado para uma nova aventura aqui no LusoTimes, abrir um “canal PAC” dedicado em primeiro lugar à poesia.

Assim para além de mostrar alguma da minha poesia, vou divulgar poetas da diáspora lusófona, jovens ou menos jovens, pouco conhecidos ou que nunca publicaram, poetas lusófanos contemporâneos do séculos XX e XXI e Poetisas lusófonas.

Partilhas que serão sempre acompanhadas por uma fotografia, uma pintura, um desenho, eventualmente um vídeo.

Vou pedir aos meus potenciais leitores do LT que nos enviem os seus poemas, fotografias, desenhos, pinturas. Estou muito entusiasmado, sinto que estou a rejuvenescer..

CM – Obrigado Pedro Assis Coimbra e Bem-Vindo ao seu novo canal de poesia no LusoTimes

CARLA MIRANDA