Fact-Checking

Fact-Checking – apresentamos algumas noticias que se tornaram virais e em colaboracao com o jornal Observador e TVI, aqui ficam alguns resultados interessantes no combate às fake news.

População chinesa nunca foi obrigada ao confinamento?

Nenhuma província teve tantas restrições como Wuhan. Mas não é verdade que a normalidade tenha sido retomada, desde fevereiro, em qualquer parte do país, como afirma um vídeo que circula no Facebook.

A China está rindo do mundo e mais ainda das autoridades do Brasil, pra quem estão vendendo vacinas feitas nas coxas e faturando bilhões. Saibam os tolos, inocentes, idiotas e pilantras que defendem o confinamento, o isolamento social (…), que na comunista China nunca houve LOCKDOWN.” 

— Utilizador do Facebook, 24 Setembro 2020

Durante mais de dois minutos e meio, uma mulher desabafa depois de ter feito uma conferência online. Segundo ela, a sessão juntou uma professora europeia e alunos da China e de Singapura, onde a autora do vídeo se encontra, e deixou a maioria dos intervenientes perplexos perante as supostas revelações dos colegas chineses.

A audiência terá soltado gargalhadas perante as perguntas sobre o ponto da situação da pandemia na China, acabando por explicar que no país teriam tido direito a três semanas de férias, nas quais podiam viajar e passear, mas nunca teriam passado por um confinamento obrigatório.

No final de fevereiro, “voltaram para o escritório e, desde então, é vida normal. Eles não foram privados de fazer nada”, conta a mulher. Contudo, não há nada que sustente estes relatos. Os dados foram descontextualizados.

china

A publicação viral, que difunde o vídeo onde estas alegações são feitas, ganha maior relevância num momento em que, em vários pontos do mundo — incluindo, em Portugal, com o anúncio de novas restrições sociais e o reforço das regras sanitárias –, os países tentam voltar a apertar o cerco à pandemia.

Nalguns comentários ao post, é questionada a veracidade das informações ali partilhadas, mas o autor insiste: “É pura verdade. No auge da pandemia, eu estava na China e não vi controle em nenhuma cidade. Voltei por Lisboa no inicio de março e, por lá, a histeria do Covid tomou conta.”

Ao contrário do que é afirmado no vídeo, o confinamento na China aconteceu — e foi, até, bastante rigoroso. Wuhan, a cidade onde foram detetados os primeiros casos de Covid-19, parou a 23 de janeiro deste ano e os cerca de 11 milhões de habitantes tiveram de ficar em casa. Só era permitido sair para fazer o estritamente necessário e não era possível sair da província de Hubei ou entrar.

Depois de Wuhan, outras cidades da região adotaram as mesmas restrições, numa decisão que afetou 57 milhões de pessoas. O confinamento terminou oficialmente a 8 de abril, durando cerca de dois meses e meio, um período muito maior que as três semanas citadas no vídeo.

Houve restrições nas deslocações e, em cidades como Pequim ou Xangai, só os residentes podiam entrar nas respetivas áreas onde viviam, o uso de máscara passou a ser obrigatório — medida que o Governo português pretende agora aplicar em todo o país — e todos os serviços não essenciais fecharam as portas, como revelava um artigo publicado na revista científica “The Lancet” a 8 de abril.

No vídeo, a mulher diz ainda que os colegas chineses não são obrigados a usar máscara desde maio. Essa informação também não corresponde à realidade. Em Pequim, por exemplo, o equipamento de proteção individual só deixou de ser obrigatório na rua a 21 de agosto, após 13 dias sem registos de qualquer nova infeção na cidade.

De acordo com os números revelados, a pandemia parece mais estabilizada na China do que na Europa ou nos Estados Unidos da América, por exemplo. Ainda assim, esta terça-feira, 13 de outubro, foram confirmados 13 novos pacientes com Covid-19, incluindo seis transmissões locais, quebrando o recorde de 57 dias seguidos sem contágios domésticos.

Conclusão

Não é verdade que a população chinesa nunca tenha sido obrigada a cumprir confinamento e que tenha retomado a vida normal desde fevereiro. Em Wuhan, onde começou a propagação de Covid-19, as primeiras medidas de isolamento só começaram a ser levantadas no início de abril. No resto do país não houve restrições tão rígidas mas não eram permitidas deslocações, a não ser as inevitáveis, e o uso da máscara foi obrigatório até em localidades com poucos casos, como Pequim, até agosto.

Bill Gates recusou-se a vacinar os filhos?

Post viral diz que Bill Gates não vacinou os filhos. Informação já foi desmentida por outros fact checkers internacionais. Melinda Gates afirmou ter vacinado os seus filhos.

A frase

“Você sabia que Bill Gates se recusa a vacinar os seus próprios filhos?”

— Utilizador de Facebook, 08 Outubro 2020

O multimilionário e um dos fundadores da Microsoft, Bill Gates, costuma ser um alvo preferencial de publicações virais. Desta vez, o assunto está ligado à vacinação, um tema muito discutido quer nos Estados Unidos da América quer um pouco pelo mundo inteiro, já que o grande objetivo atual contra a pandemia é a corrida para descobrir uma vacina contra o novo coronavírus.

“Você sabia que Bill Gates se recusa a vacinar os seus próprios filhos?”, pergunta o post de 8 de outubro, atribuindo uma citação a um alegado médico do filantropo sobre a recusa de Gates em vacinar os seus três filhos. “Não sei se ele os vacinou em adultos, mas posso dizer que se recusou terminantemente a vaciná-los quando eram crianças. Eram crianças lindas, muito inteligentes e vivazes.

Bill Gates disse que ficariam bem como estavam, não precisando de nenhuma injeção”, lê-se no post. Trata-se, no entanto, de uma publicação falsa que foi verificada anteriormente por outros fact-checkers internacionais.

fact-checking

A informação veiculada, apesar de referir um profissional de saúde como sendo alguém que foi “médico particular de Bill Gates em Seattle na década de 90”, não refere o seu nome nem quando é que estas alegações foram proferidas. Diz também que estas palavras terão sido ditas durante um simpósio, mas nem refere quando esse simpósio aconteceu nem de que evento se tratava.

Além disso, este boato já corre nas redes sociais desde 2018, tendo sido verificado — e considerado como falso — por vários órgãos de comunicação social e fact checkers internacionais como a Reuters, a Agência Lupa, o Associated Press (AP) ou o Poynter, Instituto de Estudos de Média e detentor da Rede Internacional de Fact Checking.

Por outro lado, em 2019, Melinda Gates, mulher do filantropo de Seattle, veio garantir, através do Facebook, que todos os seus filhos “estavam plenamente vacinados”. Nessa publicação, garante também que “a vacinação resulta” e que, “se menos pessoas decidirem aceitá-la, iremos ficar mais vulneráveis à doença”, afirma.

Na verdade, há dois anos, meios de comunicação social como a Reuters ou a AP falaram com o editor do YourNewsWire (que agora se chama NewsPunch), responsável por espalhar esta informação, que afirmou que a história foi copiada de um blogue. “Os nossos standards editoriais mudaram de forma significativa desde que o artigo sobre Bill Gates foi publicado, já não defendemos os argumentos apresentados nesse texto”, referiu a publicação, citada pela agência de notícias britânica.

Nenhum dos verificadores de factos que analisaram esta publicação, como a Reuters ou a Agência Lupa, encontraram informações que validassem a ideia de que Bill Gates não vacinou os seus filhos quando eram mais novos.

Através da sua fundação (Bill & Melinda Gates Foundation), Bill Gates e Melinda Gates têm dedicado uma especial atenção ao tema da vacinação, através de financiamentos milionários para esta causa. Durante a pandemia da Covid-19, o casal, através da fundação, doou 100 milhões de dólares para detetar, isolar e tratar doentes infetados.

Conclusão

É falso que Bill Gates não tenha vacinado os seus filhos quando eram mais novos. Esta informação já foi desmentida por vários fact-checkers internacionais num passado recente, até porque a informação veiculada foi publicada num portal de notícias que disseminou notícias falsas. Melinda Gates, mulher do filantropo, também veio garantir que os seus três filhos foram vacinados, através da sua página oficial de Facebook. A Fundação do casal multimilionário tem vindo a financiar esta temática, quer no passado quer agora, devido à pandemia do novo coronavírus.

Covid-19 é “muito menos letal” que a gripe?

Donald Trump comparou a Covid-19 à gripe, mas usou números errados e falácias. O tweet foi ocultado por “espalhar informações enganadoras e potencialmente prejudiciais”. Que informações são essas?

A frase

“Muitas pessoas todos os anos, às vezes mais de 100 mil, e apesar da vacina, morrem de gripe. Vamos fechar o nosso país? Não”.

— Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, Twitter 06 Outubro 2020

Depois de três dias de internamento, Donald Trump, infetado com o novo coronavírus, abandonou o Hospital Militar Walter Reed e rumou à Casa Branca. Não tardou até voltar ao Twitter com uma mensagem sobre a Covid-19; e também não tardou até a rede social sinalizar — mas não eliminar — o dito tweet por conter “informações enganadoras e potencialmente prejudiciais” relacionadas com a doença.

A mensagem ainda está disponível — porque na interpretação do Twitter, “determinou-se que pode ser do interesse público que o tweet permaneça acessível” — e defende a abertura total da economia norte-americana ao comparar a gripe sazonal com a Covid-19:

“A época da gripe está a chegar! Muitas pessoas todos os anos, às vezes mais de 100 mil, e apesar da vacina, morrem de gripe. Vamos fechar o nosso país? Não, aprendemos a conviver com isso, assim como estamos a aprender a conviver com a Covid, na maioria das populações muito menos letais”.

Em primeiro lugar, não é verdade que, nos Estados Unidos, o número de mortes provocadas pela gripe chegue a ultrapassar as 100 mil. As estimativas do Centro de Controlo de Doenças (CDC), que elenca os números da gripe desde a temporada de 2010-2011, dizem que, nos últimos 10 anos, nunca houve mais de 61 mil mortes por gripe; e que, na última temporada, foram 22 mil as vítimas mortais.

Em segundo lugar, também não é verdade que a Covid-19 seja “muito menos letal” que a gripe — e, mais uma vez, são as próprias autoridades de saúde norte-americanas que contrariam as informações de Donald Trump. Até à última quarta-feira, perto de 211 mil pessoas morreram de Covid-19 nos Estados Unidos — quase dez vezes mais vítimas mortais do que os doentes que perderam a vida no inverno passado com a gripe.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também confirma que a Covid-19 tem uma taxa de letalidade substancialmente superior à gripe: até quatro em cada 100 pessoas infetadas pelo novo coronavírus morrem da doença provocada pelo SARS-CoV-2. Para a gripe sazonal, essa taxa de letalidade está abaixo dos 0,1%, mas tudo depende do “acesso e da qualidade dos cuidados de saúde”, continua a organização.

Conclusão

É falso que a Covid-19 provoque muito menos mortes que a gripe sazonal. Ao contrário do que Donald Trump afirmou através das redes sociais, a letalidade da gripe não ultrapassa as 61 mil mortes ao longo dos últimos 10 anos nos Estados Unidos, enquanto a Covid-19 já provocou quase 211 mil mortes no país em 10 meses. Ou seja, não é verdade que a Covid-19 seja “muito menos letal” que a gripe, tal como confirmam as estimativas das autoridades de saúde mundiais e norte-americanas.