A escassez de comida é um dos grandes medos nesta crise provocada pela Covid-19 no Reino Unido, o que levaria ao racionamento de produtos, maior agitação social e motins nas ruas. Foi o que admitiram hoje dois analistas britânicos em segurança.

“Temos de recordar que o Reino Unido, como a maioria das outras economias desenvolvidas, não produz a maior parte dos alimentos que consome. O Reino Unido importa 50% dos seus alimentos. Se houver uma interrupção, não dentro do próprio Reino Unido, mas dentro das cadeias de abastecimento internacionais, vai haver escassez”, avisou hoje Elizabeth Braw, investigadora do Royal United Services Institute (RUSI).

O Governo tem apelado nos últimos dias aos britânicos para que “sejam responsáveis” na compra de alimentos nos supermercados, procurando mitigar o pânico no consumo que resultou em prateleiras vazias e filas à porta das lojas.

O sector de distribuição reagiu, limitando o número de unidades que cada cliente pode comprar de certos bens essenciais, como massas, arroz ou papel higiénico, e procurou tranquilizar a população, garantindo que existem reservas suficientes nos armazéns.

Em três semanas, segundo o British Retail Consortium, as vendas renderam mil milhões de libras, tendo o ministro para o Ambiente, Agricultura e Alimentação, George Eustice, adiantado que algumas fábricas de comida aumentaram a produção em 50%.

No entanto, numa teleconferência organizada esta quarta-feira pelo RUSI, Elizabeth Braw, recordou que este não é um problema que o governo britânico possa resolver porque as cadeias de abastecimento são operações comerciais internacionais que podem ser perturbadas pela crise.

O resultado pode ser a imposição de um racionamento alimentar, recordando uma conversa que travou há uns anos com um deputado escandinavo sobre um cenário de crise e escassez global. “Talvez tenhamos de verificar qual o número de calorias que um adulto ou uma criança possa comer. E talvez deva haver restrições à compra de alimentos nesse sentido, em vez de ser apenas dois pacotes de massa”, sugeriu.

Também Jack Watling, especialista em conflitos terrestres, alertou para o risco de agitação civil e motins nas ruas, mesmo antes de se chegar a uma situação de escassez de alimentos, se a população tiver essa percepção.

“Uma das coisas críticas em termos de prevenção são as pequenas alterações na gestão da cadeia de abastecimento. Se  as autoridades não conseguirem explicar estes problemas, é aí que a agitação civil pode rapidamente ficar fora de controlo”, analisou Watling.

O sector retalhista é uma das excepções feitas pelo Governo britânico para continuarem a trabalhar durante o período de confinamento, em que os britânicos devem apenas sair de casa para comprar bens essenciais, como comida e medicamentos, fazer exercício ou ajudar pessoas mais desfavorecidas.

Os funcionários dos supermercados foram considerados trabalhadores-chave, tais como médicos, enfermeiros e polícias, podendo os filhos continuar a ir às escolas públicas, encerradas para a maioria dos alunos. Os limites aos horários dos motoristas de entregas foram levantados.

As leis da concorrência foram também aliviadas temporariamente no Reino Unido para permitir que os supermercados colaborem operacionalmente para “alimentar o país”, podendo partilhar informações sobre os níveis de reservas, colaborar para manter lojas abertas e partilhar veículos para o transporte e distribuição. Até podem partilhar trabalhadores.

O balanço de terça-feira feito pelo Ministério da Saúde britânico confirmou 422 óbitos entre 8077 casos positivos.




Deixe um comentário

  Subscribe  
Notify of