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Miguel Castanho sublinha, sobre a vacina da Pfizer, que "a prova dos nove ainda vai a meio".© Filipa Bernardo/Global Imagens

Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular, vê o anúncio da farmacêutica Pfizer com um otimismo cauteloso.

“Há bons indícios, mas ainda não há provas”. Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) considera que o anúncio de que a vacina da Pfizer tem provado uma eficácia de 90% na prevenção das infeções de covid-19 é uma boa notícia – e que até pode ir mais além do combate ao Sars-CoV-2 -, mas é preciso esperar pelos resultados finais dos testes para tirar conclusões. “A prova dos nove ainda vai a meio”, adverte, sublinhando que estamos perante resultados preliminares, que ainda não foram publicados e escrutinados.

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A farmacêutica norte-americana, que está a desenvolver uma vacina em conjunto com a alemã BioNTech, anunciou que entre os 43 538 participantes na terceira fase de testes foram identificados 94 casos de covid-19 positivos, uma percentagem de eficácia superior a 90%.

“A proteção nos doentes foi alcançada sete dias após a segunda de duas doses e 28 dias após a primeira, segundo os dados preliminares”, avançou a empresa na manhã desta segunda-feira.

“Os dados até agora apontam para uma eficácia de 90%. É um bom número, de facto, sobretudo porque outras vacinas, alternativas, apontam para níveis de eficácia bastante mais baixos, da ordem dos 60%.

Mas estamos a falar de um anúncio baseado em dados não finais”, sublinha o responsável pelo laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos do IMM.

O investigador destaca que, se os resultados finais vierem confirmar o anúncio feito pela Pfizer, isso significa que há mais boas notícias a caminho – “sendo bem-sucedida é uma nova frente que se abre e é uma nova frente que tem implicações não só para esta vacina, mas também para outras vacinas futuras, como poderá até ter para medicamentos em outras áreas terapêuticas completamente diferentes”.

“É o primeiro sucesso de uma nova frente de combate a várias doenças”, sublinha.

Tradicionalmente, as vacinas usam o vírus enfraquecido ou inativado para desencadear uma reação imunitária (uma opção que também está ser seguida, por exemplo, no caso da vacina chinesa).

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Já no caso da vacina da Pfizer e da BioNTech, o princípio de ação é diferente. “Aquilo que se utiliza é uma parte do genoma do vírus, uma parte do código genético do vírus, que está codificado em RNA (e não como está nas células, em DNA).

Essa molécula de RNA vai levar a que algumas células do nosso organismo produzam uma proteína que é típica do vírus e que vai ser reconhecida pelo sistema imunitário como sendo uma proteína estranha”, explica Miguel Castanho. “Essa presença da proteína acaba por educar o sistema imunitário para reconhecê-la como algo de estranho, que deve ser eliminado.

Se o sistema imunitário voltar a entrar em contacto com a proteína, desta vez porque ela está agarrada ao vírus, é desencadeada uma resposta imunitária”, conclui o professor da Universidade de Medicina de Lisboa.

A tentativa de desenvolver vacinas deste tipo “já vinha de trás” – “contra o vírus da gripe, por exemplo, ou contra o zika” – mas se se confirmarem os resultados preliminares agora avançados, esta será a “primeira vacina a ser bem sucedida com este princípio”. E há “outras a ser desenvolvidas que utilizam o mesmo modo de ação, portanto é legítimo esperar que, esta funciona e é eficaz, outras que usam o mesmo modo de ação também o serão”.

“Ainda não há confirmação, mas são bons indícios”, repete Miguel Castanho, mas advertindo que é preciso manter cautela. Porquê? “Primeiro, porque não são resultados finais, segundo porque a vacinação vai demorar um tempo considerável a atingir uma dimensão que consiga ter impacto concreto sobre a pandemia”.

Se tudo correr bem e a vacina for autorizada, aí começa uma “tarefa imensa, hercúlea” de produzir e distribuir a vacina. “Tanto mais que esta vacina está a ser testada para ser administrada em duas doses. Estamos a falar de 700 milhões de pessoas na Europa, 300 milhões nos Estados Unidos, sete mil milhões de pessoas em todo o mundo. A tarefa de dar duas doses da vacina vai demorar muito tempo”, sublinha o investigador do IMM. “Ainda que se produzam alguns milhões de doses este ano, ainda que se produzam milhares de milhões de doses no próximo ano – são os números de que se fala – até atingir uma vacinação apreciável da população total vai demorar alguns anos”, diz Miguel Castanho.

E há ainda uma outra questão: “Estamos a falar de um resultado, que é especialmente bom, que é o da eficácia. Faltam os resultados da segurança. Mas aí é preciso tempo, esses dados só vamos saber mais à frente”.

A Pfizer e a BioNTech fecharam um contrato com a União Europeia em setembro que prevê a venda de 200 milhões de doses da vacina, ampliável em mais 100 milhões de doses, a distribuir proporcionalmente entre os vários países da UE. Considerando o número total de 300 milhões, caberá a Portugal uma percentagem de 2,3% – 6,9 milhões de vacinas.

Além da Pfizer a União Europeia também já fechou acordos com a AstraZeneca/Oxford (também para 300 milhões de doses), o consórcio Sanofi/GSK (igualmente 300 milhões) ou a alemã Curevac (225 milhões, sendo que esta é uma vacina que assenta no mesmo princípio de ação da da Pfizer), além de outras três vacinas atualmente em testes. No total, a União Europeia firmou contratos para 1200 milhões de doses de vacinas (acordos que estão dependentes do êxito das vacinas).

FonteDN
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Manny Olas estudou em Cambridge, Reino Unido, e vive em Northampton desde 2003. É um apaixonado por comunicação, serviço publico e interação com o publico em geral. Faz emissões de rádio online e negocia no mercado de valores como passatempo.