Um tributo a Manuel Guimarães (1938-1997)

Recebi de João Peixoto a dificílima, como toda a missão honrosa, tarefa de dialogar com as ideias do douto e amigo Manuel Guimarães. Aceitei o desafio.

Confesso que passei dias a reunir reflexões que poderiam ser colocadas em destaque. Hesitei muito, mas a resposta estava na face mais tempestiva do também historiador. Sim: o homem que gostava de desvendar o passado e que adorava caldo de Saramagos e Cangarrinhas.

Ao escrever sob o seu manto congreguei algumas reflexões suas, sobre a sociedade que o absorveu durante os seus 58 anos de vida (1938-1997), parte dela dedicada a leccionar, escrever, debater, desvendar, bem-degustar e empreender.

Fã dos livros

Impressiona saber que Manuel Guimarães, assentava a sua postura sobre um vasto conhecimento da História, dos grandes autores a obras de várias épocas e culturas.

Manuel Guimarães partilhava apreço pelo Velho Zé Bretes, que era dos raros em Tomar a ler e escrever latim e que fazia parte do relicário de docentes na então Escola Comercial e Industrial de Tomar. Quem se lembra do Zé Bretes? Ambos ensinavam português.

Manuel Guimarães acrescentava ainda ao seu vitae o ensino da língua francesa com que se iniciou nesta Escola. A ele se deve a fundação da Biblioteca Municipal de Tomar, nos anos 60 do século passado.

Mestre da oratória

As suas aulas eram como palestras-conto, abordando temas que encantavam plateias, virtualizando pensamentos simples que apenas confirmam o potencial multiplicador da forma como a sua inteligência investia em pequenas-grandes coisas, iluminando o obscuro de então. Estávamos em 1972.

Foi numa das suas aulas que vivenciei o confronto entre o bom senso e o senso comum num afloramento racional e sistémico sobre o ser humano como animador de tempos e lugares.

Estava a querer-nos emprestar um tributo, num sentido mais persistente, remetendo à necessidade de promover um encontro-enlace entre as ideias e o que de mais precioso considerava, a autenticidade das coisas.

Manuel Guimarães provocou-nos e levou-nos a viajar pelos labirintos dos raciocínios, antes fiéis à liberdade de pensar, que ao intento aparente de descobrir a sua função prática num Mundo que ele entendia ser mais espiritual do que material.

Numa das suas aulas sufragámos subversivamente e pela primeira vez um delegado de turma, perante os alumni da hoje Escola Secundária Jácome Ratton.

Fã do cinema

Envolveu-nos na produção de um filme, que passou longe de se apresentar como o ponto redutor de um ciclo formativo – ou aprendizado – em tentativas alusivas de ir ao encontro das memórias do futuro, pois das memórias passadas nos lembramos nós, referia ele.

Manuel Guimarães vem no filme, guionizado e rodado pelos seus discípulos, justamente para usar todo o seu conhecimento com o fim de impedir a cicatrização de qualquer uma das questões com que qualquer um de nós se confronta sobre as linhas do tempo, mantendo-as vivas não apenas no momento, mas também em cada contexto do passado e do futuro onde atuam.

Admirador do azeite

Os olivais surgiam ao redor das povoações de Tomar e os lagares instalavam-se junto aos cursos de água próximos. O azeite tinha várias utilizações, designadamente na iluminação, alimentação, lubrificação de máquinas e saponificação (Saboarias de Thomar).

As oliveiras davam as azeitonas mas também lenha para combustível. Manuel Guimarães queria escrever a história da oliveira e dos azeites em Tomar. Levou-nos para um levantamento de lagares e olivais pois muitos dos seus alunos, apesar de frequentarem a escola em Tomar, provinham das aldeias circundantes e arredores da cidade.

Manuel Guimarães foi também muito crítico às práticas coevas no olival e entulhamento dos lagares e afirmava que existia teimosia em estragar os azeites. O bom azeite era para ele produto gourmande e afirmava convicto do seu enorme potencial gastronómico e de atração de forasteiros.

Em 1979, nasce o livro A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar.

Um Apaixonado por Tomar

Lembro-me de Manuel Guimarães, autor do livro História de uma Fábrica – A Real Fábrica de Fiação de Tomar, afirmar que entre duas palavras sobre a história da Fábrica de Fiação caberia ainda muitas vírgulas.

Entre as palavras do título deste livro publicado em 1991 talvez fosse conveniente suprimir qualquer sinal intermediário, mas a conjunção pela qual optou remete-nos à necessidade da percepção da atitude-sucesso, acção-fracasso, condições tanto para umas quanto para as outras se realizarem em nós.

O livro é um memorial fantástico que nos remete para universos outrora almejados e realizados tais como a fábrica das sedas e os estabelecimentos de Gabriel de la Croix e Noel, Le Maître em Tomar (1771, 1789), a Fábrica de Algodões, lençaria e meias de fina e pura seda.

Nele encontramos nomes que dignificaram a cidade, como Jácome Ratton e Timotheo Lecussan Verdier, entre muitos outros. Uma análise aprofundada leva-nos a perceber o período da crise a José Rodrigues Simões, bem como o contexto de 1945 aos nossos dias.

A Fábrica da Fiação de Tomar chegou a ser considerada a maior unidade têxtil de Portugal e deixou de laborar em 1993, esmagada pela ausência de lideranças e presença de acções devassadoras.

História de Ler e Comer

Manuel Guimarães faz do livro História de Ler e Comer um retrato de si. Queria demonstrar a superficialidade no comer e colocá-la em meio às produções impessoais, além de desmistificar o conceito de gastronomia então em uso.

Publicado em 1991, é um livro saboroso na prosa e não menos saboroso nos paladares que apresenta, referia a nota editorial da Bertrand. Prefaciado por Carlos Consiglieri lança também, em Abril de 2001, o livro À Mesa com História, publicado pela Colares Editora.

O Congresso da Sopa

Manuel Guimarães foi também um reconhecido gastrónomo. Ainda me lembro, como se de hoje fosse, quando dizia para o seu amigo Lino, o Cotralha: – A COMER E A BEBER É QUE A GENTE SE ENTENDE E QUEM PASSA NÃO DESDENHA!

Partilhava críticas na imprensa nacional não raras as vezes com Zé Quitério. Adorava sopas de Saramagos e Cangarrinhas. Referia, que em tempos, o povo deitava mão ao saramago e à cangarrinha que despontavam nos trigais. Ninguém se opunha à sua apanha, pois até lhes dava jeito.

Caíram em desuso por terem ficado aliados a tempos de pobreza na memória das gentes do campo. Eram as chamadas rúculas de hoje, que substituíam os nabos e as couves.

Para muitos tratava-se apenas de ervas daninhas e o parente pobre dos caldos. Para Manuel Guimarães, a sopa de cangarrinhas, ou cardo-de-ouro, era o perfume do idílico.

Em 1983, Manuel Guimarães leva as sopas a Congresso. Valorizar e dignificar as sopas tradicionais que ecoam muito da sabedoria popular, esteve na génese desta pouco ortodoxa iniciativa.

Julgo, que ainda hoje, poucos percebem o verdadeiro significado do Congresso da Sopa. Não era assim que Manuel Guimarães o tinha imaginado. “A verdadeira vida não dispensa a sopa e não há como evitar a pergunta: o que seria a vida verdadeira sem a sopa?”

“A sopa é uma forma de estarmos ligados não à vida (falsa) em que estamos mas a uma vida (a verdadeira) que pretendemos”, lembraria hoje Manuel Guimarães.

Muito faltou relatar sobre o visionário Manuel Guimarães. Eis a receita do Caldo de Saramagos ou Cangarrinhas, que ele nos deixou como legado.

Ingredientes

Saramagos ou Cangarrinhas (peça ajuda a quem conhece para colher as ervas no campo)

Banha de porco ou azeite

Feijão frade previamente cozido

Batatas do campo

Massinhas caseiras

Sal

Instruções

Leve um tacho com água ao lume e quando atingir o ponto de fervura adicione o unto, o feijão-frade cozido e as batatas

De seguida, junte as massinhas e deixe cozinhar até ficarem leves e flutuantes

Finalmente adicione os saramagos e as cangarrinhas, desligue o lume e tape o tacho

Deixe descansar cerca de 5 minutos antes de servir

ARNALDO RIVOTTI

Arnaldo Rivotti
Português, profissional de comunicação, peregrino convicto, umas vezes ensaísta, outras vezes chef de cozinha, Arnaldo Rivotti, nasceu em Maringá-Brasil, a 30 de agosto de 1958. Fez o Caminho de Santiago, uma experiência que lhe mudou a vida.