Um artista tão generoso quanto bruto, sensual e caprichoso. Edmundo Rivotti emergiu das bandas de garagem que tinham como tutor o músico tomarense Carlos Moisés, o mentor da Quinta do Bill.

Aliando carisma, ambição e uma enorme capacidade criativa, passou quase 45 anos a representar outras vidas. Quem o conhece diz que é incansável, acordando com força para sovar um leão.

Parece não querer perder pitada de nada, nem por cá nem lá fora. Tem a sensação de que está tudo por fazer.

É verdade, Edmundo protagonizou participações na imprensa regional e nacional, vindo da locução de programas de entretenimento em rádios locais enquanto adolescente.

Mais recentemente aventurou-se pelo mundo do cinema, onde interagiu no elenco criativo e universo mirabolante de Edgar Pêra.

Em terras celtas, onde atualmente vive, reuniu-se num pub escocês com o britânico Ryan Blackwood, de Edimburgo, um famoso cameraman que foi vencedor de um prémio BAFTA Scotland.

Rodeado de uma pequena equipa, delineou aquilo que seria o seu plano musical e cinematográfico, The Truth’s Lies.

Juntou ao longo da vida um manancial de inspiradores artistas e profissionais de várias origens e de reconhecidos créditos: António Sérgio na rádio ou Edgar Pêra no cinema, para citar os exemplos mais mediáticos.

“O videoclip teve estreia no LusoTimes e rebentou de views no Youtube. Chega agora a um dos maiores festivais de cinema mundiais, dos estúdios Pinewood”

Conta com participações, feitas à distância, de talentosos músicos. O baixista Paulo Bizarro e o multi-instrumentista Cató Calado, ambos da Quinta do Bill.

A guitarra eléctrica é de Gonçalo Gato, um artista clássico numa face diferente da habitual. Gato foi o compositor residente da Casa da Música o ano passado e tem também previsto para breve o lançamento do seu primeiro álbum.

Outer Space (I Don’t Believe in), o single de avanço para um disco que vai sendo construído por capítulos, foi gravado e misturado em Dublin, ao lado de Jasmin Prnjavorac, um produtor bósnio há muito radicado na Irlanda. Foi depois masterizado no estúdio Mister Master, em Setúbal, por Rui Dias, antigo guitarrista da Quinta do Bill e dos UHF.

YouTube video

 

Realizado também por Edmundo Rivotti, o videoclip foi filmado em Edimburgo, na Escócia, e em Lucan, na Irlanda, pela câmara do já anteriormente referido Ryan Blackwood. Dois actores com pouca ou nenhuma experiência completaram o bouquet: o amigo italiano Alessio Williams Gava e a ciprioto-dinamarquesa Katerina Andronicou.

O videoclip teve estreia no LusoTimes e rebentou de views no Youtube e nas redes sociais. Chega agora a um dos maiores festivais de cinema mundiais, dos estúdios Pinewood, a Hollywood do Reino Unido.

Inserido na competição de estreantes – First-Time Filmmakers Sessions -, o português aventura-se agora pelo (Ed)Mundo. Este festival integra a Lift-Off Network, que engloba eventos de exibição em todo o planeta, iniciativas de distribuição, uma cerimónia de premiação sazonal e uma rede sempre crescente e activa de criadores de filmes independentes.

A Lift-Off tornou-se uma enorme plataforma para artistas emergentes. Isso inclui longas e curtas-metragens, videoclips, animações, arte experimental ou vídeos comerciais. Também se apresenta como uma rampa de promoção e troca de histórias, além de amplas iniciativas de produção.

Edmundo Rivotti consegue assim o mais complicado: soar a si mesmo.

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“Estou ansioso e entusiasmado, como não estar?”, refere em entrevista ao LusoTimes de Londres, onde é hoje Editor Executivo.

Fala-me de ti. Como enfrentas o medo do fracasso?
Eu não tenho medo do fracasso, e ele também deveria ser reconhecido. A sociedade só reconhece o sucesso. Talvez sinta mais receio pelo sucesso que pelo fracasso. Canto a minha vida, o que vier virá. Este primeiro single é autobiográfico. Saí de Portugal com duzentos euros no bolso e um punhado de sonhos. Enfrentei os meus demónios e vou conseguindo dominá-los.

“Sou bruto por natureza e reparei que se cantar as pessoas ouvem-me. Se falar chamam-me maluco”

Sempre soubeste o lugar que ocupas e o que tens vindo a procurar?
Não penso nisso, só quero fazer canções. Sou bruto por natureza e reparei que se cantar as pessoas ouvem-me. Se falar chamam-me maluco. Hoje não procuro tanto o meu lugar – entrego-me a compor e a verbalizar melodias. Uma melodia é um universo onde se chega e onde se quer ficar. Uma música só tem valor quando nos faz sentir que encontrámos o nosso lugar. Ficamos saudosos e nostálgicos quando ela se ausenta. Para quê procurar, quando através da música chegamos aos lugares que mais queremos e perto de quem mais gostamos?

O que é para ti dar humanidade ao valor?
Essa pergunta é lixada. Simplifica…

Na música o que é para ti o mais difícil?
É esperar. Esperar é o mais difícil e eu esperei muito tempo. Primeiro espero pela melodia, com verdade e com sentido. Mas vêm sempre as malhas. Depois há um enquadramento com o que penso e o que sinto. O que também está ligado de alguma forma ao facto de quando era mais novo ter de ter aprendido a esperar. Poucas coisas acontecem casualmente e de forma célere. Esperar é um pouco como estimular em mim e nos outros o pensamento e a dúvida. Sinto-me bem e convivo bem com a dúvida. Faz-me melhorar e aproximar das pessoas. Por isso temos de esperar até que a dúvida se dissipe.

Como é que funcionas a nível de composição?
Digamos que primeiro vem o assobio. Depois as palavras e finalmente a técnica.

Há silêncio na tua melodia?
O silêncio é talvez a parte mais importante da canção. A música é matemática e o equilíbrio vem dos silêncios. Mas é também um formigueiro de emoções. É como desnudar e colocar a minha alma a nu, como a exposição, por exemplo, que o videoclip irá ter neste festival de cinema. É viver o silêncio que só se ouve na melodia da canção.

Onde está para ti o futuro?
O futuro está na verdade e no sentido das coisas.

Estão também outras coisas para acontecer em breve?
Between Fear and Love é o nome do novo single.

“não procuro agradar de propósito. Claro que gosto que gostem de mim. Mas dou a minha verdade. Se gostam ou não, nada posso fazer”

Mais participações?
Tenho músicos fabulosos do meu lado. Uma banda que envolve famosos e menos famosos.

Como arranjas tempo para tudo isto?
Temos sempre tempo quando queremos ter tempo.

Porque é que procuras cada vez menos agradar?
Eu não procuro agradar de propósito. Claro que gosto que gostem de mim. Mas eu dou a minha verdade. Se gostam ou não, nada posso fazer. Aprendi algo que julgo que é comum às pessoas envolvidas no fazer artístico. Os artistas só podem ser irreverentes.

És irreverente?
Sou.

CARLA MIRANDA