Uma vacina contra a Covid-19 poderá estar pronta dentro de um ano, num cenário “optimista”, informou esta quinta-feira a Agência Europeia de Medicamentos (EMA, sigla em inglês), com base nos ensaios e investigações em curso.

“Existe a possibilidade, se tudo correr como planeado, que algumas vacinas estejam prontas para serem aprovadas dentro de um ano”, declarou Marco Cavaleri, director de estratégia da EMA, durante uma videoconferência.

“Essas são apenas previsões baseadas nos dados existentes. Mas ressalvo novamente que tudo isto no melhor cenário, pois sabemos que todas as vacinas em desenvolvimento podem não receber autorização e desaparecer”, sublinhou, alertando que no processo também “pode haver atrasos”.

A EMA, uma agência da União Europeia com sede em Amesterdão, mostra-se assim céptica em relação às informações que sugerem a hipótese de uma vacina estar pronta já em Setembro.

Paralelamente, Cavaleri minimizou os receios da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o novo coronavírus “nunca desapareça”.

“Acho que é um pouco cedo para dizer, mas temos boas razões para estarmos optimistas de que as vacinas vão chegar”, disse Cavaleri, acrescentando: “Ficarei surpreendido se falharmos na tarefa de encontrarmos uma vacina para a Covid-19”.

OMS e o “cansaço das restrições”

A OMS advertiu, entretanto, que o cansaço das restrições impostas pela pandemia ameaça o progresso conseguido através da aplicação dessas medidas, aconselhando os governos a ouvirem as reclamações das populações.

“O ‘cansaço de estado de emergência’ ameaça os preciosos progressos que conseguimos contra este vírus. Desconfiança nas autoridades e teorias da conspiração estão a alimentar movimentos contra o distanciamento físico e social”, afirmou o diretor da OMS para a Europa, Hans Kluge, em conferência de imprensa virtual a partir de Copenhaga, na Dinamarca.

O responsável daquela agência das Nações Unidas afirmou que o sucesso da luta contra a Covid-19 depende de “um contrato social” entre as populações e os decisores que “vai para além do que qualquer responsável governamental ou líder nacional consegue controlar”.

“Estamos na encruzilhada, no ponto onde o comportamento individual determina o caminho que seguimos: ou o que leva a uma nova normalidade ou o que nos manda de volta às restrições aos nossos movimentos e interacções sociais”, declarou.

Hans Kluge defendeu que “os governos devem ouvir as suas populações, ganhar a sua confiança e planear medidas de resposta à pandemia”, de acordo com as preocupações dos cidadãos.

Para isso, a OMS criou uma ferramenta que ajuda os governos a realizarem sondagens periódicas e perceberem quais as principais preocupações e que já 40 países utilizam, indicou.

O responsável europeu da OMS salientou que “surtos de novos casos apareceram em lugares como Wuhan e na Coreia do Sul, onde o vírus parecia ter desaparecido”, o que vem lembrar que “a ameaça do seu ressurgimento não está afastada”.

Estar alerta é preciso tanto nas alturas em que a transmissão esteja no pico como naquelas em que as restrições estejam a ser levantadas, destacou.

“Em termos simples, o nosso comportamento hoje vai determinar o rumo da pandemia. Quando os governos levantam as restrições, os cidadãos tornam-se os actores principais. É uma responsabilidade individual e colectiva. Sigam as recomendações das autoridades nacionais. Limitem as interacções sociais e continuem a lavar as mãos”, apelou.

“A desconfiança e a resistência a essas medidas são um desrespeito pelas mudanças de comportamento que todos fizemos para limitar a Covid-19 e mandar-nos-ão pelo caminho que nenhum de nós quer tomar”, argumentou.

Por outro lado, também indesejável, há pessoas que estão a ser “demasiado cautelosas” e a limitar demais as suas interacções sociais e não usam os serviços de saúde mesmo que precisem, afirmou, defendendo que é preciso um equilíbrio.

Hans Kluge reforçou que “não há lugar para complacências”, notando que na região europeia há um abrandamento do número de novos casos mas que Espanha, Rússia e Reino Unido continuam entre os dez países do Mundo com maior aumento diário do número de casos.

Burundi expulsa representante da OMS

Mais a sul, quatro especialistas da OMS no Burundi, incluindo o seu representante no país, serão expulsos na sexta-feira, anunciou o Ministério dos Negócios Estrangeiros numa carta endereçada ao escritório africano da instituição.

O ministério “tem a honra de informar que as pessoas, cujos nomes estão listados abaixo, foram declaradas personas non gratas e que, portanto, devem deixar o território do Burundi antes de 15 de Maio de 2020”, pode ler-se na carta.

Trata-se de Walter Kazadi Mulombo, representante da OMS no Burundi, dois funcionários, Jean-Pierre Mulunda Nkata, coordenador da resposta ao novo coronavírus no país, e Ruhana Mirindi Bisimwa, chefe do programa de doenças transmissíveis, e o consultor, Daniel Tarzy, especialista em biologia molecular.

“É toda a equipa da OMS responsável pelo apoio ao Burundi na resposta à Covid-19. Foram acusados de interferência inaceitável na gestão do coronavírus”, explicou à France-Presse um funcionário do Burundi, sob anonimato.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Burundi tinha iniciado o processo de expulsão dos quatro funcionários no mês passado, mas depois suspendeu-o após conversações entre o chefe de Estado, Pierre Nkurunziza, e o diretor-geral da OMS, segundo fontes diplomáticas e administrativas.

Estas expulsões ocorrem alguns dias antes das eleições presidenciais e legislativas de 20 de maio.

O governo do Burundi é acusado pelos médicos e pela oposição de ocultar casos de Covid-19. Até agora, o país africano registou oficialmente apenas 27 casos positivos e uma morte.

O governo do Burundi, que considera que o país está protegido da Covid-19 pela “Graça Divina”, decidiu fechar as fronteiras mas não tomou medidas de contenção, ao contrário da maioria dos outros países da região.

Desde o início da campanha eleitoral, as reuniões políticas ocorreram normalmente e atraíram grandes multidões, sem que medidas reais de saúde fossem implementadas.


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